Quando o dinheiro cai do céu!

Quando o dinheiro cai do ceu

 

Tem horas que eu tenho certeza de que Deus fala comigo. O computador travou. E eu cheio de freelas para entregar. Pior. Cheio de contas para pagar, que dependem dos trabalhos que não consigo terminar. Chamo o técnico e o diagnóstico é grave. Entramos os três no carro, eu ele e o computador. No caminho para a casa do técnico, na Tijuca, o improvável acontece.

Enquanto dirigia pela Avenida Brasil, sentido Centro, um filme passava em minha cabeça. Como deixei minha vida chegar àquela situação? Quase 30 anos, sem um puto no bolso. De repente uma nuvem de papel picado me trouxe de volta à realidade. Na altura do Caju, centenas de fragmentos em suspensão provocavam um início de congestionamento. Obrigado a parar, espantei-me quando um daqueles papéis aterrissou sobre o parabrisa do carro. Era uma nota de R$ 10.

Arregalei os olhos, olhei pro técnico de informática Anderson Camillo no banco do carona, tão incrédulo quanto eu. Dois fodidos sem entender o que acontecia. Gritamos em um coro não ensaiado: “É dinheiro, poooorra!”. Puxei o freio de mão, saltei por um lado e ele pelo outro. Comecei a catar notas no chão. A correr atrás delas, na verdade. Só pensava nas contas. Nos meus 30 anos sem um puto no bolso.

Quando catava mais uma nota, um ônibus buzinou na faixa seletiva passando devagar, mas rente à minha cabeça. Aquilo me tirou de uma espécie de transe e percebi o absurdo da situação. Eu e mais uma dúzia de motoristas garimpando dinheiro que caia do céu. Olhei meu carro já a uns 70 metros de distância. Parado, com as portas abertas e chave na ignição. Na pista de sentido contrário, uma multidão tentava atravessar para tomar parte no garimpo. Gritei para o técnico e corri para o carro. Era hora de partir.

Entrei no carro e coloquei o chumaço de notas amassadas sobre meu colo. Logo percebi um olhar lamurioso do técnico no banco do carona, ao perceber que pegara bem menos cédulas do que eu. Desamassei oito notas e repassei a ele como pagamento adiantado pelo serviço que realizaria em meu computador. Em seguida foi minha vez de lamentar mentalmente por não ter conseguido pegar mais notas. Impressionante o poder que o dinheiro exerce sobre nós.

Ao sair daquele engarrafamento, uns 200 metros a frente, um motoqueiro sangrava de pé ao lado de uma moto caida. Ele carregava malotes de dinheiro em uma mochila rasgada e era atendido por um grupo de policiais militares. Fiquei com muita pena do cara, me senti péssimo. Sim, eu estava duro. Sem dinheiro para as contas, sem dinheiro para o remédio da minha filha. Sem o meu meio de trabalho. Mas já tinha idade suficiente para saber que dinheiro não cai do céu.

Isso foi há 15 anos. Nunca mais esqueci a lição.

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