Menino do Mal

 

“Sai daí, ô palhaço”.

Crézio estava em frente à sua antiga escola. Os fios brancos, o excesso de peso e duas décadas como motorista de transporte escolar o separavam da época em que arrastava sua mochila para dentro daquele mesmo prédio, lutando contra o sono e o medo. Jamais imaginou que ficaria preso àquele ritual por toda uma vida. Enquanto meninos e meninas desciam de seu carro, observava as mochilas coloridas disputando espaço pelo estreito portão azul. E torcia para que o desembarque, ao menos daquela vez, fosse mais tranquilo. Nunca era.

“Tira essa lata velha daí, seu gordo”

Todo dia enfrentava o mesmo problema. Não podia deixar as crianças no meio da rua. Já tinha perdido as contas das vezes em que pedira à direção da escola para retirar os pinos de concreto da calçada. Não lhe prestavam atenção. Nunca lhe ouviram. Obrigado a parar sua van na rua, rente ao meio fio, dava à Fernando a deixa para quem sempre o perseguira. Desde os bancos escolares, quando Fernando já demonstrava prazer em humilhá-lo.

No fundo da van, William paralizado. Encolhido, olhos esbugalhados. Não parecia pronto para mais um dia. Crézio entendia bem os medos do único menino negro em sua turma, morador de um bairro pobre, em meio aos filhos da classe média carioca. Lembrava-se de sua própria história e não subestimava os temores do garoto de apenas 12 anos. Enfrente seus medos e jamais permita que te desrespeitem, aconselhou, como em todas as vezes anteriores. Em verdade, Crézio nunca peitou seus monstros, mas queria que com William fosse diferente.

Naquele dia, como em todos os outros, o menino agradeceu ao motorista, que também era seu tio, abraçou-o e desceu da van determinado.

“Aahh, tinha que ser o favelado. Tem que ensinar esse moleque que carro não é galho de árvore pra ficar agarrado nele a vida toda”

William já estava no portão azul, quando virou-se e observou seu tio, de cabeça baixa, entrando na van.

“Anda logo, seu retardado. Tira essa merda da minha frente”

Crézio deu partida na van, mas estranhou ao ver seu sobrinho sorrindo para ele, parado na calçada, de costas para o portão azul. Será que ainda faltava-lhe coragem para entrar? Crézio olhou mais atentamente para os olhos de William e gelou com o que sentiu. Era um sorriso determinado. Crézio, olhos esbugalhados, fez sinal para que o sobrinho o aguardasse.

Enquanto o tio saltava com dificuldade da van, William correu até a frente do carro de Fernando. Sorriu para o motorista com seus olhos determinados. Sacou a pistola do pai de sua mochila. Disparou um, dois, três, cinco tiros no peito de Fernando. O sexto disparo fez os miolos de William se espalharem pelo capô do Audi de Fernando.

As duas mortes em frente à tradicional escola chocaram o país. O pai de William foi expulso da PM. Crézio foi preso acusado de incitar o sobrinho a cometer um homicídio. Fernando ganhou placa de homenagem na escola em uma emocionante cerimônia pela paz e tolerância. O governador prometeu maior combate ao tráfico que, segundo ressaltou, faz com que jovens carentes cresçam aprendendo a banalizar a violência. Pressionada pelos pais, a escola endureceu os critérios de concessão de bolsas para alunos oriundos de regiões mais pobres da cidade.

 

**NOTA DO AUTOR: escrevo ficções realistas e te convido a conhecer o meu livro “PRIMEIRA PÁGINA”, um thriller urbano ambientado no Rio de Janeiro. Segue o link: http://livro.jmcostaescritor.com.br/

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