Limões no sinal e a pressa de quem tem fome

Martha ligou o limpador de parabrisas por conta da chuva fina que começava a apertar no início daquela tarde. À sua frente, um menino de no máximo 9 anos fazia malabarismo com três limões em um sinal de trânsito. Pés descalços, rosto sujo, peito nu exposto ao frio. O olhar de Martha se distanciou e remeteu-lhe à aula que ela acabara de dar.

Limões alternavam-se no ar entre as mãos miúdas do malabarista mirim. Foram poucos segundos de exibição até que o pequeno começasse a abordar as janelas fechadas dos carros com um gestual de cortar o coração. A mão direita circulava em torno do próprio umbigo enquanto a esquerda varria ar para dentro da boca vazia. Sua fome tinha voz própria.

Buzinas. Direitos fundamentais, garantias constitucionais, Estatuto da Criança! Mais buzinas. Por um instante, tudo tão distante do mundo real. O coro de carros ferozes reconduziu Martha ao foco. A chuva apertou, ela sorriu para a criança em sua janela e acelerou. Tinha apenas 40 minutos para almoçar antes de ministrar mais uma aula de Direito e Cidadania.

 

 

 

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